O esforço de negociação foi gigantesco, mas a realidade dos juros compostos se impôs e toda a “limpeza” do calote realizada pelo Desenrola foi anulada. Dados do Banco Central revelam que a cada R$ 1 renegociado no programa federal, o sistema financeiro viu, desde então, brotar R$ 1,15 em inadimplência nova.
Lançado com a promessa de ser uma virada de página para a vida financeira dos brasileiros, o programa Desenrola Brasil teve números exuberantes: repactuou dívidas de 14,8 milhões de pessoas em 24,2 milhões de operações de crédito que, juntas, somavam R$ 53,2 bilhões em inadimplência.
Um mergulho nos microdados do Banco Central, no entanto, revela que desde então, o estoque dos calotes na pessoa física cresceu R$ 61 bilhões.
Ou seja, em menos de dois anos, o calote novo superou em 15% o total renegociado. Hoje, o sistema bancário tem a marca alarmante – e recorde – de R$ 171,4 bilhões em operações de crédito com atrasos superiores a 90 dias nos pagamentos. O dado é de fevereiro de 2026.
O que ser viu foi um típico “efeito sanfona” comum nas dietas mal planejadas, mas dessa vez com efeitos no bolso dos brasileiros: a iniciativa do governo conseguiu emagrecer a dívida das famílias em 2024, mas em 2026 elas voltaram a engordar — e pior: com juros muito maiores.
O Desenrola atuou como um remédio para o sintoma que era a lista de negativados. Esse sintoma melhorou temporariamente. A doença, porém, continua mais forte que nunca: que é o desequilíbrio profundo entre juros elevados, superoferta de crédito e novos destinos para o orçamento familiar, como as apostas esportivas.