Três fatores ajudam a explicar por que a renda no Brasil não tem acompanhado o custo de vida, segundo Rodrigo Simões, diretor da Faculdade de Comércio de São Paulo (FAC-SP): baixa qualificação da mão de obra, baixa produtividade - que empurra o brasileiro a trabalhar mais horas - e uma economia ainda relativamente fechada.
"Não somos, de fato, uma economia aberta, como a de muitos países. Esses três pontos são os que tornam um país rico. A produção no mundo inteiro cresce, mas, onde houve menos investimento em educação, tecnologia, fábricas e desenvolvimento local, a população sofre porque não consegue dar uma 'estilingada' na renda", diz Simões.
Para ele, isso ajuda a explicar a sensação de que a inflação segue descontrolada, mesmo quando os indicadores oficiais apontam estabilidade média dos preços.
Para Heron do Carmo, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) e ex-coordenador do IPC-Fipe, o comportamento de consumo explica parte relevante dessa percepção: as pessoas não "sentem" a inflação em sua integralidade, mas pelos preços dos itens mais presentes no dia a dia.
"Quando há muita volatilidade, isso perturba. E não é só no Brasil", afirma, citando o incômodo de consumidores nos EUA com alimentos e gasolina.
Segundo Heron, supermercados, farmácias e padarias atendem públicos diferentes, mas a sensação tende a ser determinada pelos itens mais frequentes no carrinho. Quando esses sobem, quedas em outros preços passam despercebidas.
O economista Alexandre Maluf, da XP Investimentos, concorda que a diferença entre percepção e indicadores não é exclusivamente brasileira e se intensificou após o choque da pandemia, que elevou o nível de preços.